Classic Fighters – Royce Gracie.

Falar de Royce Gracie é falar dos primórdios do UFC e de todo o legado deixado pela família Gracie. Filho de Hélio Gracie, Royce aprendeu Jiu-Jitsu com seu pai e praticando com seus irmãos, Rorion, Relson e Rickson Gracie. Enquanto ele competia aqui no Brasil e dividia as aulas na academia da família (ele era faixa azul aos 16 anos, mesmo treinando desde criança, numa rigidez tradicional dos Gracie), seu irmão Rorion tentava a sorte na terra das oportunidades, Estados Unidos, onde teve pequenos empregos como frentista, até decidir abrir uma academia na garagem de sua casa. Royce, então com 18 anos, é convidado pelo irmão para viajar para os Estados Unidos e dar aulas com ele. Lá ele alcançaria  a faixa preta e um recorde enquanto campeão de Jiu Jitsu (51 vitórias e três derrotas).

Mas eram tempos de expansão para Rorion: ele havia se envolvido com Hollywood em pequenos papéis e popularizado o jiu-jitsu entre os astros da indústria do cinema. Um deles, o diretor e roteirista John Milius (responsável pelos roteiros de Apocalypse Now e Conan, o Bárbaro) tornou-se aluno de jiu-jitsu e ficou muito impressionado com os desafios organizados por Rorion e pela família Gracie no Brasil. Ele então sugere a criação do chamado “War of the Worlds” um torneio eliminatório sem regras, dentro de uma gaiola e cercado por uma piscina de crocodilos. A ideia colocou o “pé-no-chão” até chegar no modelo do Ultimate Fighter Championship, um torneio quase sem limites com lutadores de todas as artes marciais, com massiva distribuição em pay-per-view. Em 12 de novembro de 1993, temos a primeira edição do UFC.

Rorion organiza o torneio, convida os lutadores e decide colocar um membro da família Gracie lá. A escolha fica entre Rickson e Royce Gracie. Rickson sempre foi considerado o mais forte e habilidoso da família, possuindo um cartel de mais de 200 vitórias (a maioria não creditada em eventos oficiais) e Royce, ainda sem nome e tido como o mais franzino dos Gracie. Acabou optando por Royce e sem saber, iria mudar para sempre a história das artes marciais.

O estilo de Royce era algo nunca visto antes. Os lutadores acabavam desistindo imobilizados sem sequer suarem ou sangrarem, muitos não entendiam o que havia acontecido. Royce finalizou todos os oponentes até chegar à final contra o francês campeão de Savate Gerard Gordeau, onde o resultado não foi diferente. O mesmo ocorreu no UFC 2 e no UFC 3, ambos em 1994. No UFC 3, temos a luta antológica contra o kickboxer Kimo Leopoldo que pesava 30 kg a mais que Royce, provando definitivamente a superioridade do jiu-jitsu e da luta de chão. No UFC 4, temos uma grande luta entre Gracie e um mestre do Wrestling, Dan Severn:

Grande de verdade: com a ausência de regras no tempo, o combate se estendeu por mais de 15 minutos até o excepcional triângulo de Royce nos últimos minutos de luta. Repare também na narração, os locutores não fazem a menor noção de como a luta está se desenvolvendo, tamanha a novidade que aquele tipo de luta representava.

No UFC 5, durante as semifinais, temos uma revanche, Ken Shamrock, wrestler derrotado por Gracie no UFC 1 retorna bem mais preparado, iniciando aquela que seria a luta mais longa da história do UFC, com mais de meia hora e acabando sem vencedor. Após esta luta, Gracie se afastaria do evento alegando não concordar com o limite de tempo e também alegando já ter feito sua história nele. A luta marcaria história no evento e os colocaria no seleto Hall of Fame do UFC:

Royce voltaria aos eventos no Pride, onde seu irmão Rickson já havia sido campeão. No Pride, temos o maior rival de Royce nos ringues: o Wrestler japonês Kazushi Sakuraba, famoso por derrotar vários integrantes da família Gracie (e chamado por isso de Gracie Hunter ). Na primeira luta dos dois, em 2000, Royce demonstrou um novo estilo agressivo em pé e com a mesma eficiência no chão. Novamente temos uma luta absurdamente longa de 90 minutos (a mais longa da história das lutas modernas) a equipe Gracie joga a toalha, dando a vitória para Sakuraba.

Em 2002, temos uma luta mais que simbólica: Royce Gracie contra Hidehiko Yoshida. A luta era uma alusão a famosa luta entre Hélio Gracie (pai de Royce) e o famoso judoca Masahiko Kimura (mestre da academia de Yoshida). A luta teve um resultado polêmico quando o juiz atribuiu uma vitória por finalização de Yoshida sem Gracie ter se rendido ou ter desmaiado:

A revolta dos Gracie com o resultado obrigou o Pride a realizar um rematch imediato, dessa vez com empate para os lutadores. Após algumas lutas no Pride, um Royce mais magro e com técnicas de Muay Thai retorna para o UFC em 2006 ( já sob a nova direção de Dana White) para confrontar o novo número 1 do torneio: Matt Hughes. A luta acaba no primeiro round, Gracie vai até o limite da resistência contra o armlock de Hughes e quebra seu braço. Hughes leva Royce ao chão e termina a luta no ground and pound. A idade e o auge do atual campeão pesaram na vitória e embaçaram o tímido retorno do antigo campeão ao torneio que ele revolucionou.

Em 2007, temos a esperada revanche contra o rival Sakuraba em uma luta extremamente longa e sofrida A polêmica decisão da vitória de Gracie revoltou os fãs orientais, que contaram mais pontos para Sakuraba:

A polêmica aumentou mais ainda quando foi comprovado após da luta o uso do esteróide Nandrolone, que aumenta a massa muscular do esportista. Gracie alegou que não havia modificado sua massa física, pois aumentou apenas 2 kg desde a sua última luta. Ele recebeu a maior pena que o Pride poderia aplicar (2500 dólares) e foi suspenso de disputar o campeonato, que acabou antes da multa acabar, após a compra dos direitos pela Zuffa.

Foi cogitada uma participação de Royce no UFC RIO, provavelmente contra algum adversário clássico como Art Jimmerson. Seu profile voltou à ativa no site do UFC, mas o tão esperado retorno ainda não aconteceu.

Sem dúvida nenhuma Royce foi o lutador mais importante para a renovação das artes marciais na década de 90 e para o surgimento do MMA. Depois de provar a efetividade das submissões, a luta de chão passou a ser artigo obrigatório para todo e qualquer lutador que quiser se aventurar num octógono e o Brazilian Jiu Jitsu, a principal luta  no ringue.

Saiba mais sobre Royce neste vídeo da época dos primeiros UFC’s:

entrevista ao Sport TV: