Advogado de Rinha

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O título é exagerado, claro.

Pode ficar tranquilo! Não tenho carteira a OAB, sequer sou formado em direito e não tenho a menor empatia por esportes que envolvam animais escravizados em nome do sadismo humano. Mas veja, não posso evitar me sentir como se fosse aqueles senhores suarentos e gordos fanáticos por rinhas, esfregando as mãos cheias de notas engorduras de dinheiro contra jaulas e gritando para criaturas nervosas que estão se matando sem saber muito bem o porquê.

É inevitável, sou um fã dos esportes de luta e acompanho  sua ascensão insegura para o centro do palco, recebido com a alcunha de esporte grosseiro de segunda categoria, rinha humana. E não adianta o Anderson Silva desfilar e cantar com sample de voz feminina no comercial de hambúrguer, ou o Júnior Cigano fazer mousse de maracujá na Ana Maria Braga, o estigma de rinha humana permanece, mesmo suavizando a imagem dos supostos cães.

Enquanto uma entidade internacional representante do esporte favorito do Brasil cria um Estado de Exceção, incentiva fenômenos de higienização, desapropria famílias e cria um conflito em escala nacional em nosso já violento país, pode apostar que um dos espaços menos violentos se encontra cercado por oito grades.

De um lado e de outro do ringue, estão dois indivíduos lutando na verdade para complementarem renda familiar, construírem seu nome e sua academia em sua cidade ou apenas querendo o gosto dos holofotes das madrugadas de sábado.  Para isso, eles precisam dar um show e ainda sair de lá inteiros, e acreditem, eles sairão. Mesmo que para olhos destreinados, a técnica aplicada pareça violência, ou o sangue escorrendo pareça algo sério e impróprio (imagine se pudéssemos ver internamente o que um estrago de um acidente de corrida causa ao piloto; o que os olhos não veem o coração não sente).

Possivelmente esses lutadores terão uma carreira que pode tranquilamente chegar aos quarenta ou quarenta e cinco, coisa rara num mercado esportivo cada vez mais competitivo, precoce, anabolizado e mercantil. Não vemos no futebol ou em outros esportes em que as regras estão voltadas para o campo e a bola tamanha preocupação com a vida útil dos esportistas, mas mesmo assim ainda exigimos que eles nos entreguem desempenhos de semideuses para honrar nosso pay-per-view. Violência, pois é.

Se voltarmos para o primeiro UFC, no já distante ano de 1993, podemos ver um franzino Royce Gracie munido de não muito mais que um excelente jiu jitsu enfrentando o violento lutador francês Gerard Gordeau, que quase cegara seu adversário na luta anterior. Assim como na sua luta anterior contra o gigantesco Ken Shamrock, Gracie aplica uma técnica sutil, pouco empolgante para olhos ávidos de sangue daquele primeiro vale tudo, mas inacreditavelmente efetiva. Era a mesma técnica que os samurais usavam em combates corpo-a-corpo para derrubarem seus adversários nas armaduras, buscando as articulações soltas, mas com um elemento novo de alavanca.  Venceu na submissão, travando a violência incontrolável do lutador de rua francês.

Royce voltaria a surpreender um ano depois contra o imenso Kimo Leopoldo, mais de vinte quilos de músculo a mais que o Gracie. Perdeu também submetido à técnica. Somente em 1995, quando um novo Ken Shamrock, preparado para o wrestilng no chão, Royce encontrou um desafio. O empate interminável entre esses dois criou um paradigma definitivo e explodiu a grife do BJJ (Brazilian Jiu Jitsu) por academias pelo Brasil e pelo mundo, com praticantes que passam por Jim Carrey e pelos cheiks do petróleo nos Emirandos Árabes. Se os primeiros campeonatos pareciam de fato rinhas humanas, a arte marcial provou obrigou todos a se profissionalizarem, se tornar atletas.

Para nós, os fãs de artes marciais, é incrível ver o esporte ser exaltado dessa forma. Nós e os lutadores que estão no UFC passamos de alguma forma pelas mesmas origens, somos alunos de academias de karatê, judô e agora jiu jitsu. Somos de alguma forma fruto da popularização das artes marciais que vieram pra cá com a imigração japonesa. Assistimos nomes relegados pela grande mídia como o de Francisco Filho, grande atleta de karatê que brilhou no campeonato japonês K-1 nos anos 90 e recentemente apareceu como preparador técnico do Ultimate Fighter. Quem ouviu falar dele em nosso país, a despeito dos títulos que ele conquistou?

Esses atletas estão aí há décadas, saíram com a disciplina técnica das artes marciais orientais e tentaram fazer carreira e achar um espaço onde dava. E quem acompanha as lutas sabe da precariedade de patrocínio e incentivo para um cara buscar a sorte num campeonato de outro país. Tiveram que criar um campeonato onde valia tudo na luta (e acreditem, nos primeiros UFC’s valia de tudo mesmo) para provar a superioridade da técnica sobre a violência e conseguiram. Exemplos de lutadores violentos lá fora que foram subjugados pela técnica e tiveram que se adaptar não faltam.

O UFC consegue acertar em muitos pontos para mudar sua imagem. O reality show The Ultimate Fighter consegue mostrar para o publico “leigo” a rotina dos lutadores, os treinos pesados, a técnica, a trajetória e o pós-luta.  O esporte já abriu as portas para um lutador com Síndrome de Down e sem dúvida isso chocou e marcou positivamente um esporte que busca sua identidade.

Para quem assiste, mas considera um retrocesso, peço que veja com mais cuidado, tente ao menos um dia acompanhar os atletas pelas redes sociais mostrando sua recuperação, a relação com o adversário, a recepção da família. Observe como aquele rosto ensanguentado quase sempre não passa de cortes superficiais, ossos do ofício para o esportista. Observe que o nocaute pode assustar, mas somente vendo o segmento do processo é possível ver que o dano que aquilo causa na integridade do indivíduo é inexistente.

Há todo um direito de se desgostar da agressividade e do contato (e não confundir agressividade e violência), mas não duvide que a menor das violências será encontrada num esporte onde ela é mais aparente.